sábado, 14 de fevereiro de 2015

Leitura Crítica da Mídia: Trabalhadoras Domésticas




Parte da série jornalística "Trabalho doméstico, Trabalho decente", este especial retrata a realidade de trabalhadoras domésticas negras e indígenas do Brasil, Bolívia, Guatemala e Paraguai na busca por direitos, respeito e dignidade. O documentário visibiliza oportunidades e desafios dos países para a promoção dos direitos econômicos e do empoderamento das mulheres.

Esta série foi produzida pela TV Brasil Internacional e contou com o financiamento e assessoria técnica da ONU Mulheres (antigo UNIFEM) através do Programa Regional Gênero, Raça, Etnia e Pobreza, com o apoio da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Guias de Comunicação

"Uma palavra não é só uma palavra, ela pode machucar, 
isolar, excluir,  ferir, matar, confundir, prejudicar, enganar"

(Campanha do Grupo de Apoio à Prevenção da Aids/Bahia)


Sugestões de guias e manuais para facilitar a comunicação e evitar a propagação de preconceitos e informações equivocadas. Confira:




Guia das Migrações Transnacionais e Diversidade Cultural para Comunicadores  (2013) - Organizado por Denise Cogo e Maria Badet, o guia nasceu da iniciativa de um grupo de pesquisadores de universidades do país e do exterior, como UFRJ, Universidade Vale dos Sinos (RS), Universidade Católica de Brasília e a Universidade Autônoma de Barcelona. Dentre as preocupações e objetivos do Guia estão: reconhecer o crescimento das migrações transnacionais e de seus desdobramentos nas relações com a sociedade; valorizar, sem idealizar, a diversidade cultural e as contribuições econômicas, políticas e socioculturais dos migrantes; contribuir para a ampliação do debate social sobre o tema; situar o papel preponderante da mídia na construção da visibilidade do assunto, entre outros. Traz dados, conceitos e recomendações para o acompanhamento das migrações, e sugestões de contatos e fontes na área.

Baixe o guia completo aqui.




Manual para o Uso Não Sexista da Linguagem – O que bem se diz bem se entende (2014) - Elaborado pela Secretaria de Políticas para as Mulheres/RS em parceria com a Secretaria de Comunicação, com a Casa Civil, a Repem-Lac e o grupo de trabalho instituído através do decreto nº 49.995 de 27 de dezembro de 2012. Tem como objetivo proporcionar tratamento equitativo entre mulheres e homens a partir da utilização da linguagem sem generalizações, evitando a aplicação sexista do discurso.

Baixe o manual completo aqui.






Guia para jornalistas com referências e informações sobre enfrentamento ao tráfico de pessoas (2014 – Repórter Brasil, Ministério da Justiça e UNODC) – baseado em entrevistas com mais de 20 especialistas, entre autoridades, acadêmicos e representantes da sociedade civil, reúne recomendações para a cobertura e acompanhamento, incluindo sugestões de fontes, datas importantes e o marco legal, com indicações da legislação e de tratados internacionais ratificados pelo Brasil.

Baixe o guia completo aqui.





Tráfico de pessoas na imprensa brasileira (2014 – Repórter Brasil, Ministério da Justiça e UNODC) – tem como base a análise de 655 textos publicados entre 1º de janeiro de 2006, ano de lançamento da Política Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas, e 1º de julho de 2013, ano do II Plano Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas. O estudo indica que o tema ainda não recebe atenção suficiente por parte da mídia.

Baixe o documento completo aqui.






Violência Sexual - Guia OnLine para Jornalistas - mini-guia elaborado pela ANDI - Comunicação e Direitos com uma seção tira-dúvidas de conceitos básicos sobre abuso e exploração sexual. Traz ainda indicações sobre leis relativas ao assunto, sites para pesquisa e documentos de referência e dicas para tornar mais segura e efetiva a apuração ou produção das reportagens.

Acesse aqui.





Outros guias úteis para comunicadores:



Lei de Acesso a Informações Públicas – O que você precisa saber - produzido pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) com financiamento do Programa Internacional para Desenvolvimento da Comunicação da Organização das Nações Unidas para Educação, Comunicação e Cultura (UNESCO). O material resume os principais pontos da Lei de Acesso (nº 12.527/2011) em linguagem direta e acessível. Traz também conteúdo detalhado sobre pontos-chave como transparência ativa, recursos e prazos de sigilo, apontando legislações relacionadas.

Baixe o guia completo aqui.







Manual de Segurança para Cobertura de Protestos (2014) guia elaborado pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) a partir de entrevistas com repórteres agredidos, presos ou hostilizados durante os protestos que tomaram as ruas a partir de junho de 2013. O manual da Abraji compila recomendações de diversos manuais internacionais para situações de passeatas e manifestações. 


Baixe o manual aqui


























Leitura Crítica da Mídia: Carnaval

Reportagem do jornalista Ricardo Noblat contextualiza o carnaval do Rio de Janeiro, poucos dias antes de a Beija-Flor ganhar o título de campeã 2015. E em seguida, leia reportagem de 100Reporters de 2012 que acrescenta mais informações sobre a Guiné Equatorial, país homenageado pela escola de samba que foi a vencedora do carnaval no Rio de Janeiro. Ao final, reportagem do Portal Fórum mostra um vídeo com o protesto do coletivo Projetação denunciando as atrocidades cometidas pelo presidente da Guiné Equatorial:



Presidente da Guiné Equatorial dá R$ 10 milhões para desfile da Beija-Flor que exalta o país

Um dos ditadores mais cruéis do mundo frequenta com discrição o carnaval do Rio e assiste aos desfiles há pelo menos 10 anos

11/02/2015 5:00 / ATUALIZADO 11/02/2015 7:52



O GLOBO - O que Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, de 72 anos, ditador há 35 anos da Guiné Equatorial, o chefe de Estado há mais tempo no poder na África, e o oitavo governante mais rico do mundo, segundo a revista “Forbes”, tem a ver com o Grêmio Recreativo Escola de Samba Beija-Flor de Nilópolis, campeã 12 vezes do Grupo Especial do carnaval carioca e a maior campeã da era do Sambódromo?

Confira na próxima segunda-feira quando a escola entrar na avenida às 23h40 em ponto, depois da Portela e antes da União da Ilha, com o enredo “Um griô (homem sábio) conta a História: um olhar sobre a África e o despontar da Guiné Equatorial. Caminhemos sobre a trilha de nossa felicidade”. Nunca antes no carnaval do Rio uma escola recebeu tanto dinheiro de patrocínio — R$ 10 milhões, injetados por Obiang, que assistirá ao desfile no Sambódromo.

Capricho de um ditador que governa por decreto um pequeno país localizado na África Ocidental, formado por duas ilhas e um pedaço estreito de continente, e habitado por escassas 700 mil pessoas? Sim. Mas ele pode agir assim. A Guiné Equatorial é um país miserável, mas é também o terceiro maior produtor de petróleo da África. Só perde para a Nigéria e Angola. Obiang concentra em suas mãos todos os poderes e governa por decreto. Faz o que quer.

FREQUENTADOR DISCRETO DO SAMBÓDROMO

Ai de quem o desafie. Seu tio, Francisco Macías, ditador anterior a ele, desafiou Obiang que o ajudava a governar. Pois acabou deposto no segundo semestre de 1979 e fuzilado pelo sobrinho. Foi um dos golpes mais sangrentos da África. Desde então o medo se abateu sobre o país. A ponto de as pessoas fugirem se alguém lhes aponta uma inocente máquina fotográfica. Receiam estar sendo alvo da curiosidade do serviço de espionagem do governo.


Há pelo menos 10 anos que Obiang frequenta com discrição o carnaval do Rio e assiste ao desfile das escolas. Ora se hospeda em um apartamento luxuoso de Ipanema comprado à vista. Ora na suíte mais cara do Copacabana Palace. Vem sempre acompanhado de parentes — entre eles seu primogênito Teodoro Nguema Obiang Mangue, conhecido por Teodorin, um dos vice-presidentes do país. O mais forte deles, escolhido para suceder ao pai um dia.

Foi em um desses carnavais que Teodorin convenceu o ditador a pagar caro por um show particular contratado à Beija-Flor. Um grupo de músicos e de passistas se exibiu no camarote de Obiang no Sambódromo. Ali nasceu a ideia de patrocinar um desfile da escola.

No ano passado, a Beija-Flor teve prejuízo com o enredo que homenageou José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni. Teodorin soube e ofereceu o patrocínio do seu governo.

De princípio, nada demais. O patrocínio de escolas de samba tornou-se comum. Em 1985, pela primeira vez, uma entrou na avenida com o enredo pago — Império Serrano, com “Samba, suor e cerveja”. Cervejarias meteram a mão no bolso. Em 1994, o governo do Ceará pagou o desfile da Imperatriz Leopoldinense, que cantou as belezas daquele estado. Em 2006, a estatal venezuelana de petróleo bancou o enredo da Vila Isabel. Este ano, além da Beija-Flor, Salgueiro, Unidos da Tijuca e Portela desfilarão com carnavais patrocinados.

Fundada como bloco em 1948, promovida a escola em 1953, a Beija-Flor carrega duas marcas — uma boa, a outra ruim. A ruim: exaltou as realizações da ditadura militar de 64 durante os carnavais de 1973, 1974 e 1975 (“Educação para o desenvolvimento”, “Brasil ano 2000” e “Grande decênio”). Era a época do Milagre Brasileiro, do “Ame-o ou deixe-o”. O general Garrastazu Médici presidia o país. Que colecionava casos tenebrosos de torturas e assassinatos.

A marca boa: foi na Beija-Flor que Joãosinho Trinta promoveu a maior revolução do carnaval carioca. Ele havia sido bicampeão em 1974 e 1975 com Salgueiro (“O Rei de França na Ilha da Assombração” e “O Segredo das Minas do Rei Salomão”). Em seguida foi tricampeão com a Beija-Flor (“Sonhar com Rei dá Leão”, Vovó e o Rei da Saturnália na Corte Egipciana” e “A criação do mundo na tradição nagô”).

A revolução: o desfile das escolas passou a privilegiar o luxo, a ostentação, os gigantescos carros alegóricos em detrimento do samba no pé. Os puristas subiram nas tamancas, mas de nada adiantou. Hoje, para manter aberto seu barracão durante o ano inteiro e entrar no Sambódromo com chances de vencer o desfile, uma escola gasta, por baixo, algo como R$ 5,5 milhões. Graças a Obiang, a Beija-Flor espera ir para a cabeça.

(continua)

Leia a REPORTAGEM COMPLETA aqui.


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O ditador e seus amigos

POR 100REPORTERS/ KEN SILVERSTEIN*

3 DE ABRIL DE 2012





Como o dinheiro do presidente da Guiné Equatorial comprou apoio nos EUA – de lobistas, advogados, políticos e ONGs. Até a luva brilhante de Michael Jackson entrou na trama

Por mais de uma década, o ditador da Guiné Equatorial, país na África subsaariana, e a sua família gastaram uma fortuna nos Estados Unidos, comprando desde imóveis até roupas em lojas como Dolce & Gabanna e Louis Vuitton. No final de outubro do ano passado, o governo americano finalmente decidiu agir para refrear as compras do círculo íntimo do presidente Teodoro Obiang Nguema; o Departamento de Justiça abriu um processo pedindo o confisco de dezenas de milhões de dólares em bens do filho e herdeiro de Nguema.

A petição, obtida pelo site 100Reporters, parceiro da Pública, afirma que Teodorin, filho do ditador e ministro de florestas do país, usou recursos provenientes de lavagem de dinheiro para comprar uma mansão de US$30 milhões em Malibu, em Los Angeles, um jatinho particular e até relíquias que pertenceram a Michael Jackson – como a luva encravada de cristais usada pelo astro pop na turnê do álbum “Bad”.

Segundo a petição, oficiais do alto escalão do regime de Obiang “adquiriram uma enorme fortuna” através de métodos como “extorsão, Teodoro Obiang Nguema, presidente da Guiné Equatorialapropriação indébita, roubo e desvio de verbas públicas”. Ao anunciar a abertura do processo, o assistente da promotoria Lanny Breuer afirmou: “Estamos enviando uma mensagem clara: os Estados Unidos não servirão de esconderijo para a riqueza de líderes corruptos”.

Não é bem assim. Afinal, a base da riqueza do regime de Obiang é o petróleo explorado por empresas americanas como ExxonMobil e Amerada Hess. Com uma produção estimada de cerca de 300 mil barris por dia, a Guiné Equatorial é o terceiro maior produtor na África subsaariana. A ação do Departamento de Justiça – que vem muito depois de dois relatórios do Senado detalharem, já em 2004, a apropriação da renda do petróleo pelo clã de Obiang – confirma a reputação do regime como um dos mais corruptos do mundo.

Mas passou quase desapercebido que tamanha corrupção tenha sido facilitada por agentes dos Estados Unidos: empresas de energia que enriqueceram Obiang fazendo acordos mais que amigáveis com ele; banqueiros e contadores que ajudaram o clã a lavar seu dinheiro; lobistas generosamente pagos que fizeram propaganda para ganhar apoio político nos EUA; e até duvidosos grupos pró-democracia que, com financiamento das petroleiras, enviaram observadores para validar eleições fraudulentas no país africano.

A maior parte dos facilitadores do regime não fizeram nada ilegal; porém, sem cerimônia, deram proteção política ao regime de Obiang. Apenas seus intermediários financeiros podem ser vir a ser escrutinizados legalmente – além de eticamente.

“Corrupção em grande magnitude não é apenas um problema local, é internacional, pois muitas vezes envolve múltiplas jurisdições”, explica Mark Vlasic, professor de direito na Universidade de Georgetown e ex diretor da Iniciativa para Recuperar Bens Roubados, do Banco Mundial.
“Oficiais corruptos não usam o PayPal para fazer transações com largas somas em dinheiro”, diz Vlasic. “Eles precisam de pessoas que os auxiliem, e esses facilitadores também têm que ser punidos pelos crimes”.

Auxílio classe A

Ainda hoje, o herdeiro Teodorin consegue obter auxílio Classe A nos EUA para resolver seus crescentes problemas. Advogado de escritórios renomados como Cleary Gottleib estão sempre à mão para lidar com seus problemas legais.  Tanto ele quanto seu pai pagam uma das maiores empresas de Relações Públicas em Washington para polir a sua imagem. Documento judiciais e entrevistas conduzidas pelo 100Reporters mostram que Teodorin emprega também intermediários americanos para constituir empresas para ele, gerir suas transações financeiras e atuar como testas-de-ferro.

Até 1990, ninguém prestava muita atenção à Guiné Equatorial. Era um dos países mais pobres e isolados do mundo. Obiang, que chegara ao poder através de um golpe de Estado em 1979, era internacionalmente considerado um pária.

Mas isso mudou no começo dos anos 90, quando a Walter International, uma empresa sediada do Texas, começou a explorar um campo de gás natural no país. Para conseguir a permissão de exploração, a Walter (que depois conseguiu vender seus direitos sobre a operação por nada menos que US$ 46 milhões) financiou os estudos de Teodorin em um curso de inglês na universidade de Pepperdine, em Malibu.

Para seu desgosto posterior, a Walter concordou em pagar todas as despesas de Teodorin, despesas que chegariam a US$ 50 mil em cinco meses, incluindo excursões para compras luxuosas em Beverly Hills e uma suíte no hotel Beverly Wilshire.

A entrada da Walter International na Guiné Equatorial foi negociada com o então embaixador americano, Chester Norris, que mantinha uma relação amigável com o regime de Obiang. Tanto que, depois de se aposentar na carreira diplomática em em 1991, ele virou representante oficial do presidente da Walter International.

O governo de Obiang gostava tanto de Norris que deu o seu nome a uma rua em uma área residencial de luxo para executivos da indústria petroleira, na capital do país.

Apesar do conhecido histórico de repressão política do governo, Norris diz acreditar que Obiang é um líder “bem intencionado”, embora reconheça que não havia feito o suficiente para ajudar os pobres, e que “deveria estar construindo casas, escolas e hospitais”.

A entrada das petroleiras

O verdadeiro frenesi a respeito de Obiang teve início em meados da década de 90, quando empresas americanas descobriram grandes reservas de petróleo no litoral do país que governa. Meses antes, a embaixada americana local havia fechado suas portas, em parte porque o novo embaixador John Bennett, sucessor de Norris no cargo, foi menos indulgente com os excessos do regime, e passou a ser ameaçado de morte por suas críticas às violações contra direitos humanos.

Assim, as petroleiras passaram a ajudar Obiang, na esperança de melhorar as suas relações com os Estados Unidos. Em 1996, antes da sua fusão com a Exxon, a Mobil ajudou a custear a viagem de observadores da Fundação Internacional para Sistemas Eleitorais por ocasião das primeiras eleições sob o governo Obiang. O conselho executivo da fundação, na época, incluía Peter G. Kelly, um lobista que representava o regime de Obiang em Washington.

A fundação criticou a eleição – Obiang ganhou com 98% dos votos – mas não tanto quanto a maioria dos observadores internacionais independentes. No ano seguinte, ela enviou uma delegação ao país que concluiu que, apesar dos problemas, havia “oportunidades para o governo, para os partidos políticos e para a comunidade internacional trabalharem conjuntamente em prol da ampliação do espaço democrático”.

Quatro anos depois, a Mobil contratou uma ONG chamada Instituto para Estratégias Democráticas para enviar observadores às eleições municipais. De novo, observadores independentes criticaram veementemente aquelas eleições, mas a equipe paga pela indústria de petróleo apresentou uma visão diferente, relatando que as eleições foram livres e justas.

(continua...)

Leia A REPORTAGEM COMPLETA aqui. 

Ken Silverstein é bolsista da Open Society Foundation e editor contribuinte da Revista Harper’s.

Clique aqui para ler o texto original, em inglês, no site 100Reporters.

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Beija Flor é campeã do Carnaval com polêmico patrocínio de ditador


fevereiro 18, 2015 19:16

Escola recebeu apoio da Guiné Equatorial que, segundo Anistia Internacional, acumula extensa lista de denúncias de violações a direitos humanos

POR REDAÇÃO 

A escola de samba Beija Flor foi eleita campeã do Carnaval do Rio de Janeiro. O título vem após o polêmico patrocínio da agremiação, que teria recebido R$ 10 milhões do presidente da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang Nguema.

A escola levou à Sapucaí um enredo que homenageia o país africano governado por Obiang há 35 anos. Segundo a Anistia Internacional, Guiné possui uma extensa lista de denúncias de violações de direitos humanos, como torturas, execuções, prisões arbitrárias e repressão violenta a protestos.

Enquanto Obiang seria o oitavo líder mais rico do mundo, de acordo com revista Forbes, com uma fortuna avaliada em US$ 600 milhões, a população é uma das mais pobres do continente africano.

À BBC, o assessor de direitos humanos da Anistia Internacional, Mauricio Santoro, disse que “Obiang vem há muitos anos ao Carnaval do Rio de Janeiro, e tem inclusive um apartamento de luxo na cidade”.

Santoro afirmou também que o presidente da Guiné representa o “estereótipo tradicional” do ditador africano: à frente de “um regime fechado, extremamente violento, que prende jornalistas e mantém todo tipo de violação de direitos humanos imaginável”.

A Beija Flor não confirmou os valores do patrocínio, mas em nota, disse que recebeu “apoio cultural e artístico do governo da Guiné Equatorial”. “Se o enredo da Beija-Flor para 2015 os incomoda tanto, porque então não começaram essa ‘batalha’ contra a Guiné Equatorial em 1974? A partir deste ano o Brasil expandiu suas relações diplomáticas com o país africano. Porque não bradaram pela exclusão da Guiné da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa?… É muito importante que o corpo de julgadores, escolhido pela Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa), não realize um julgamento político da Beija Flor. A isenção é fundamental”, diz nota da escola.

Críticos lembraram que não foi a primeira vez que a escola exaltou ditaduras. O “equívoco” teria sido cometido em 1973, 1974 e 1975, com os enredos Educação para o desenvolvimento, Brasil ano 2000 e Grande decênio, respectivamente, que elogiava os feitos da ditadura militar brasileira, desprezando os assassinatos, torturas e outras violações dos direitos humanos a opositores do regime.

Neste ano, representantes do governo de Guiné Equatorial acompanharam o desfile num camarote. Do lado de fora, o coletivo Projetação denunciou o patrocínio recebido pela escola, que exaltou uma ditadura. Veja abaixo.




Leia a REPORTAGEM COMPLETA aqui.



sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Leitura Crítica da Mídia: os efeitos nocivos do benzeno e o custo humano dos eletrônicos





“Queridos pai e mãe, como vocês estão? Me desculpem por não estar aí para cuidar de vocês. Vocês me perdoam? Eu pensei em cometer suicídio, eu pensei em pular do alto de um prédio, mas eu não tinha nem forças para subir até o topo”.

O texto acima está presente no documentário “Quem paga o preço? O Custo humano dos eletrônicos”, sendo uma parte do diário da jovem Long, uma chinesa de 18 anos que desenvolveu câncer ao ser diariamente exposta à neurotoxina N-Hexano, enquanto trabalhava em uma fábrica fornecedora de chips para empresas de eletroeletrônicos, smartphones e computadores.

O curta de 10 minutos foi realizado pelos cineastas Heather White e Lynn Zhang a respeito dos perigos ocupacionais aos quais chineses encaram todos os dias trabalhando para a indústria dos eletrônicos na China – principalmente o envenenamento por compostos químicos tóxicos, sendo o benzeno, o mais perigoso deles.

Os cineastas focam nos efeitos que esses compostos químicos têm sobre os milhões de trabalhadores a eles expostos enquanto atuam na fabricação de iPhones, iPads e diversos outros aparelhos eletrônicos que consumidores ao redor do planeta vieram a ser dependentes.

Leia aqui a íntegra da reportagem "A Apple e o custo humano dos nossos eletrônicos", de Vinicius Gomes, publicada em 19 de maio de 2014 no Portal Fórum. 

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Leitura Crítica da Mídia: Memórias da Ditadura

O governo federal lançou em dezembro de 2014 um portal na internet sobre o período da ditadura militar no Brasil, que vigorou entre 1964 e 1985. 

O site apresenta informações sobre a história do regime e dos movimentos de resistência, além de documentários, depoimentos e mapas. A página também traz uma área de apoio a professores, com planos de aula e material didático para tratar o tema em sala.

O portal foi produzido pelo Instituto Vladimir Herzog em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência.

Acesse o portal aqui.

sábado, 20 de setembro de 2014

Leitura Crítica da Mídia: MORADIA NÃO É CASO DE POLÍCIA

Texto de Raquel Rolnik

Publicado em 19/09/14 por raquelrolnik




Na última terça-feira, mais uma vez a cidade de São Paulo presenciou cenas absurdas de violência. Mais uma vez – já que esta não foi a primeira – a reintegração de posse de um edifício que, abandonado há anos, havia sido ocupado por famílias sem teto foi executada pela Polícia Militar. Desta vez, foi o prédio do Hotel Aquarius, na Avenida São João, centro da cidade.

Crianças gritando, mulheres tentando se proteger de pauladas, gás lacrimogênio, gente sangrando… cenas de guerra. Mas… guerra de quem contra quem? As cenas que testemunhamos esta semana simplesmente indicam que está tudo errado!

Senão vejamos: seria possível argumentar que a Polícia Militar estava simplesmente executando a ordem judicial para desocupar o prédio. E que só saíram na porrada porque os moradores não quiseram deixar o imóvel pacificamente. Mas, vamos examinar ponto por ponto estas afirmações.

Em primeiro lugar: por que será que mais de 200 famílias ocuparam este – e pelo menos mais uma centena de prédios ou terrenos vazios em São Paulo? Resposta: por que não têm NENHUMA outra alternativa de moradia! Estamos vivendo uma situação de enorme alta nos preços dos imóveis e dos aluguéis, muito superior ao crescimento da renda da população, mesmo considerando o aumento das ofertas de emprego nos últimos anos. E simplesmente o que existe de política habitacional hoje na cidade para uma situação de emergência como esta é: NADA.

Como disse uma moradora à imprensa, depois da reintegração de posse, “os móveis vão para o depósito, e as pessoas pra rua”. Provavelmente, vão para outra ocupação como esta, já que até o mercado de aluguéis de barraco de favela está inflacionado!

Em segundo lugar: o juiz que decretou a reintegração de posse do prédio – e terceirizou “o serviço” para a Polícia Militar –, além de checar se o edifício realmente pertencia aos proprietários que o estavam requisitando de volta, deveria checar também alguns trechos da Constituição Brasileira, do Estatuto das Cidades e do Plano Diretor, que afirmam, com todas as letras, que imóveis vazios ou subutilizados que não estejam cumprindo sua função social estão sujeitos a sanções. Na nossa Constituição, que o juiz esquece de ler, a propriedade, além de constituir um patrimônio de seu dono, tem uma responsabilidade pública em relação à sociedade.

Por volta das 16 horas desta terça-feira, 16, a situação no centro da capital paulista voltou a ficar tensa após confrontos causados pela reintegração de posse de um prédio do Aquarius Hotel ocupado na Avenida São João. A Polícia Militar voltou a lançar bombas de gás na região. Manifestantes fazem barricadas, interrompendo fluxo de veículos.

Este mesmo juiz também deveria saber que, no nosso país, as pessoas têm direitos e, assim como o proprietário tem direito de reivindicar de volta seu prédio, as crianças e as mulheres, os idosos e os mais vulneráveis têm o direito de ser protegidos. Isso significa que não se pode simplesmente decretar que as pessoas têm que cair fora do imóvel, sem também encaminhar, de alguma forma, a proteção para quem vai ficar vulnerável por esta situação.

Trocando em miúdos: há formas e formas de executar reintegrações de posse. A pior delas é deixar nas mãos da Polícia Militar, sem mediadores, sem que organismos de proteção dos direitos sejam acionados e respeitados, participando ativamente, e sem alternativas imediatas. Uma coisa é devolver o imóvel ao proprietário, outra, é o destino das famílias. O encaminhamento das famílias é uma questão social, não um caso de polícia.

O prédio da São João é apenas um entre as centenas de prédios vazios ou subutilizados há anos, às vezes, décadas, que poderiam ser transformados em habitação de interesse social. Mas os programas habitacionais de que dispomos hoje são totalmente inadequados para viabilizar a reforma e reabilitação destes prédios, a fim de atender famílias de tão baixa renda. Como se baseiam na aquisição da propriedade, a conta não fecha jamais…

Recentemente, estive no Uruguai para participar de um evento a convite da Federação Uruguaia de Cooperativas de Moradia (FUCVAM), e pude conhecer de perto uma iniciativa interessante desenvolvida pela Prefeitura de Montevidéu. A prefeitura tem uma carteira de imóveis, inclusive no centro histórico, que são disponibilizados para a Federação, que por sua vez os repassa para cooperativas reformarem ou construírem moradias populares.

Estes imóveis não se tornam propriedade individual de ninguém, são propriedade das cooperativas. Os moradores pagam a estas cotas mensais para cobrir parte dos custos da reforma ou construção e, posteriormente, da manutenção. As famílias moram nestes imóveis com usufruto permanente. Se alguma quiser se mudar, outra família, também cooperativada, também do mesmo extrato de renda, ocupará o seu lugar.

Hoje, em São Paulo, mais de 30 prédios ocupados na região central estão com processos de reintegração de posse em curso. Se não quisermos ver a repetição destas cenas lamentáveis, é urgente mudar os procedimentos de reintegração. Mas é urgente também avançarmos numa política de moradia capaz de oferecer alternativas.

Raquel Rolnik é urbanista e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo.

*Texto originalmente publicado no Yahoo!Blogs.

Leitura Crítica da Mídia: ISTO É RACISMO

Texto de  Djamila Ribeiro publicado em Carta Capital 
19/09/2014 14:36, última modificação 19/09/2014 16:05


As reações da sociedade ao caso Aranha e à nova série de Falabella, 'Sexo e as Nega', mostram o lado mais perverso do racismo no Brasil


Costumo dizer que o Brasil é o país da piada pronta sem graça. Com os últimos acontecimentos envolvendo as ofensas racistas que o goleiro Aranha sofreu e a minissérie Sexo e as Nega, essa constatação só se reafirma.

Santos FC/Divulgação
Patrícia Moreira, a moça que ofendeu Aranha, ganha um enorme espaço na mídia que a quer transformar em vítima. Quando neste País programas de TV e jornais deram espaço para alguém se defender e tentar justificar seu crime? Quem ficou com pena e deu espaço para Angélica Aparecida Souza, que em 16 de novembro de 2005 foi presa por roubar um pote de margarina? Quem fez moção de apoio a ela, quantas apresentadoras a levaram aos seus programas? Angélica passou 128 dias na cadeia de Pinheiros, e por quatro vezes teve o pedido de liberdade provisória negado. Foi condenada a quatro anos de prisão em regime semiaberto. Por roubar um pote de margarina porque não aguentava mais ver seu filho, com então dois anos, passar necessidade.

Cláudia Ferreira, a mulher morta e arrastada pela PM carioca, nas manchetes dos jornais virou a “arrastada”, nem nome ou sobrenome davam a ela, ao contrário do que fazem com Patrícia. Quem criou página de apoio nas redes sociais para a família de Cláudia? Quem ofereceu emprego ao viúvo ou se ofereceu para ajudar os quatro filhos e os quatro sobrinhos que ela criava?

Percebe-se que, no Brasil, crimes contra a propriedade, no caso de Angélica, que roubou uma margarina, são mais importantes e causam mais comoção do que crimes contra a humanidade, no caso do Aranha. Chamar alguém de macaco é animalizar um ser humano, retirar sua humanidade. Cadê a empatia nesses casos? Patrícia Moreira agora diz que quer torna-se um símbolo contra o racismo. Como uma mulher que até agora não se desculpou por ter sido racista quer ser símbolo de uma luta tão cara?

Agora irá trabalhar na ONG CUFA (Central única de Favelas). Piada pronta sem graça. Várias militantes negras com vivência do que é sentir racismo e com acúmulo teórico sobre a questão estão aí desempregadas, e uma moça que não assume seu racismo recebe a vaga assim de mão beijada. Destaco que sou contra o apedrejamento da casa dela assim como os xingamentos machistas proferidos contra ela. Mas sou totalmente a favor de que ela pague pelo que fez.

Miguel Falabella cria uma série onde mulheres negras são tratadas como objetos sexuais e quer ganhar prêmio de senhor do ano. Só o nome da série, Sexo e as Nega, já é problemático. Mulheres negras historicamente são tratadas com desumanidade e, nossos corpos, como mera mercadorias. Quantas apresentadoras negras há na TV? Quantas atrizes? Quantas jornalistas? Não precisa ser um grande estudioso das questões raciais no Brasil para perceber o quanto as mulheres negras são invisíveis aos olhos da mídia.

Em sua história no Brasil, a revista Playboy, por exemplo, teve somente sete mulheres negras em sua capa. Não estou de forma alguma concordando com esse tipo de exploração do corpo feminino, estou dizendo que, mesmo nesse mercado, a carne negra também é a mais barata. Aí, mais uma vez, nos colocam nesses mesmos papéis estereotipados e temos que agradecer a boa vontade. Para piorar, Falabella se compara a Spike Lee ao dizer que o cineasta também fala de sua realidade. Bom, Lee é negro e fala com conhecimento de causa das dores que o afligem. O que Falabella, um homem branco e rico, sabe da realidade das mulheres negras no Brasil? Piada pronta sem graça.

E dizer que as militantes que apontaram o racismo da série são capitãs do mato é se utilizar de seus privilégios para nos calar. Ninguém atacou as atrizes da série e, sim, seu diretor que se acha benevolente por empregar mulheres negras. Alguns senhores de escravos também se achavam bonzinhos por não castigar seus escravos. Queremos outros referenciais, não podemos mais aceitar que a mídia nos reduza somente a essas possibilidades.

Quem conhece minimamente um pouco da história do Brasil sabe que as mulheres negras são tratadas como objetos sexuais desde o período colonial. Ideias racistas devem ser combatidas e não relativizadas e entendidas como "meras opções pessoais de pensamento", ideologias, imaginários, arte, ponto de vista diferente, divergência teórica, opinião. Ideias racistas devem ser reprimidas e não elogiadas e justificadas. Não adianta dizer que HOJE tudo é racismo, mostrando uma explícita ignorância histórica. Este País foi fundado no racismo, não tem nada de novo. A mídia brasileira nem de longe reflete a diversidade do seu povo. E, para perceber isso, basta ligar a televisão ou folhear uma revista.

Algumas pessoas pensam que ser racista é somente matar, destratar com gravidade uma pessoa negra. Racismo é um sistema de opressão que visa negar direitos a um grupo, que cria uma ideologia de opressão a esse grupo. Portanto, fingir-se de bom moço e não ouvir o que as mulheres negras estão dizendo para corroborar com o lugar que o racismo e o machismo criou para a mulher negra é ser racista.

Não vamos nos calar diante desses absurdos, de um País onde vítimas viram algozes. Onde diretor de minissérie racista se faz de vítima e quer ganhar medalha por empregar negras. Não nos esqueçamos que muitas famílias se julgam benevolentes por darem emprego a babás negras. Quem se compadece dos milhares de negros que morrem todos os anos? Das crianças que crescem ouvindo insultos racistas? E o pior é ouvir pessoas dizendo que todo mundo faz isso ou sempre fez como se o fato de isso não se tornar público os ausentassem de culpa. Pois é, antigamente as pessoas morriam de tuberculose. A quem serve esse discurso nostálgico? Antigamente era melhor para quem?

Não nos calaremos. Como diz Maya Angelou no poema Eu Me Levanto (Still I rise):

“Pode me atirar palavras afiadas,
Dilacerar-me com seu olhar,
Você pode me matar em nome do ódio,
Mas, ainda assim, como o ar, eu vou me levantar”.

E temos dito.

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Crônica de Matheus Pichonelli para Carta Capital publicada em 19/09/2014 - 13:22, última modificação 20/09/2014 às 10:12

Aranha faz História. A torcida do Grêmio, não

Torcedores referendam as ofensas racistas ao vaiar a luta não do atleta, mas do homem. Um homem que se nega a fazer do episódio uma atração de circo

Mário Lúcio Duarte Costa. Guardem este nome. Já vou chegar a ele. Antes, quero dizer que acompanhei, pela tevê, o fim da partida entre Grêmio e Santos, em Porto Alegre, pelo Campeonato Brasileiro. O empate sem gols revela o que foi o duelo, insosso, de resultado nem bom nem mau para nenhuma das equipes. Pelos relatos, descubro que o goleiro Aranha foi o melhor em campo, com ao menos duas boas defesas que garantiram o ponto fora de casa. A crônica esportiva termina aqui. A História, com H maiúsculo, não.

Aranha acabava de voltar ao palco onde, semanas atrás, fora hostilizado por ofensas racistas vindas de parte da arquibancada gremista. De lá saíram gritos e imitações de macaco. Eram uma referência à sua cor de pele, negra. O goleiro pediu a interrupção da partida, vencida pelo Santos por 2 a 0. Deixou o campo atordoado. "Dói", dizia ele à beira do campo.

Por não aceitar a ofensa, relatada aos árbitros da partida, Aranha criou constrangimento às autoridades esportivas. Elas se viram obrigadas a eliminar o Grêmio da Copa do Brasil devido ao comportamento de sua torcida.

Antes do reencontro de quinta-feira 18, no mesmo palco, um país inteiro passou a debater um tema ainda entranhado nas relações sociais. Tão entranhado que se naturalizou, a ponto de, muitas vezes, nem sequer incomodar.

Aranha se incomodou. E não fez questão de esconder.

Como preço, é provável que tenha passado alguns dos piores dias de sua vida. Depois daquele jogo, uma das torcedoras, flagrada aos gritos de "macaco" na arquibancada, passou a sofrer ameaças nas redes sociais. Foi demitida e teve a casa incendiada por um maluco. Ela não teve tempo de se arrepender ou calcular a dimensão de seu ato: o justiçamento de sempre, um erro em qualquer lado da história, tirava dela o direito de ser julgada por uma lei já existente. Cassara, com mandado próprio, o direito à vida da torcedora.

De repente, Aranha era o pivô de tanto ódio. Não fosse seu "melindre", a torcedora estaria a salvo, o Grêmio seguiria na Copa do Brasil e o racismo voltaria ao rol de temas "menores" de um país que, nas palavras de muita gente autorizada, tem problemas mais sérios para resolver. Entre os defensores da tese está o técnico do Grêmio, Luiz Felipe Scolari, que até ontem dirigia a seleção brasileira. Ele tratou a reação de Aranha como uma "esparrela", um estardalhaço promovido por quem tentava se vitimar para prejudicar alguém - no caso, os gremistas. Pelé, maior jogador de todos os tempos, também condenou o goleiro com argumentos do arco da velha: se ele, o Atleta do Século, tivesse de parar uma partida toda vez que era chamado de "macaco" não haveria mais futebol. Segundo ele, quanto mais se fala em racismo, mas ele se aguça.

Pelé, em seu tempo, não parou o jogo, o racismo voltou para debaixo do tapete, e a fatura segue nas costas de Aranha e seus contemporâneos, que hoje tentam interromper uma partida que deveria ter sido parada há muito tempo.

Não bastasse tanta ofensa - à sua cor, ao seu caráter e à sua inteligência - Aranha voltou a campo ontem como vilão. Desta vez, não ouviu xingamentos racistas das arquibancadas, mas vaias. Muitas. Cada uma delas era o triunfo do direito de ofender sobre o direito de se sentir ofendido. Ou de reagir à ofensa. As vaias eram o referendo aos gritos de "macaco" do último duelo. Eram o recado de que tanto faz o que existe debaixo da epiderme: o que vale é ganhar o jogo. É se dar bem. É levar vantagem. E qualquer reação a isso é apenas “esparrela”.

As vaias foram o trunfo do país de Pelé e Felipão. Um país que joga às costas da vítima o peso de ser ofendido. Um país que valida, pela ignorância, o cientificismo torto de séculos passados que colocavam o negro no meio do caminho entre os símios e o homem branco. Este cientificismo baseou a ideia de supremacia racial e influenciou algumas das maiores atrocidades da História. Por isso ela ofende. Por isso chamar um branco alto de “girafa” não tem o mesmo peso que chamar um negro de “macaco”: apenas um deles fora escravizado pela História.

A manifestação de ontem da torcida gremista era a manifestação da derrota: a derrota de Aranha, a derrota de um país inteiro que apenas finge que deixou de açoitar seus antigos escravos. Apesar disso, ele jogou. Foi o melhor da partida, segundo a crônica esportiva. A mesma crônica que, ao fim do duelo, cercou o jogador para arremessa-lo ao centro do picadeiro com uma única pergunta: “como se sente?”

Acossado, Aranha tentava explicar que deixava o campo entristecido pela reação da torcida, que referendava a ofensa do último duelo. Mas vaia era vaia, admitia, e contra ela não tinha o que fazer.

Um dos repórteres, em tom de deboche, chegou a questionar: “E qual a diferença?”.

“Você sabe a diferença”, respondeu Aranha.

“Não sei: me diga”, desafiou o sujeito do microfone, como se não soubesse.

“Você acha certo o que aconteceu?”, questionou o goleiro.

O repórter respondeu algo como “não tenho que achar nada”. E Aranha, mais uma vez, deixou o campo balançando a cabeça em tom de incredulidade. Tinha toda razão para ver e não crer.

Já nos vestiários, um pouco mais calmo, ele voltou a ser questionado sobre o assunto. Os repórteres queriam saber por que ele se negava a se encontrar com a torcedora que o ofendera e que estava sedenta por um abraço e pelo seu perdão. O circo dava ao goleiro o papel de Meursault, o personagem de O Estrangeiro, de Albert Camus, condenado não por um crime, mas por não ter chorado no enterro da mãe. O circo queria ver o goleiro chorar. De preferência, abraçado com a agressora. Queria ver o circo pegar fogo. Aranha, de novo, novamente, outra vez, respirou fundo. E respondeu algo como: “Ir lá, abraçar ela, e toca uma música e tudo mais. Aquela cena toda e só depois dos comerciais… Isso pra mim não adianta. Eu não quero".

Aranha talvez não soubesse, mas acabava de desmontar a “esparrela” armada para ele. Percebeu, muito antes dos homens de seu tempo, o que era um circo. Um circo midiático. E o rejeitou. Como rejeitou a ofensa que agora tantos querem minimizar como “melindre”.

Aranha parou o jogo, um jogo que segue perdendo, para mostrar simplesmente que atrás das cortinas de um circo que não criou existe um homem. Este homem se chama Mário Lúcio Duarte Costa, seu nome de batismo. Que é maior que a alcunha. Que é maior que o próprio esporte. Que não merece ouvir o que ouviu. E que parece disposto a interromper o jogo quantas vezes forem necessárias. Até que o recado seja entendido. Até que um dia a história mude. De vez. Mário Lúcio Duarte Costa acabava de fazer História.

Em tempo: Triste o país que precisa de heróis. Mas, se não é um, Aranha é inegavelmente o rosto de uma luta tão justa quanto necessária. Acho que já gastei minha cota de citações a Caetano Veloso neste ano, mas é impossível assistir à trajetória do goleiro santista sem lembrar da música "O Herói", do álbum Cê:

não quero jogar bola pra esses ratos
já fui mulato, eu sou uma legião de ex mulatos
quero ser negro 100%, americano,
sul-africano, tudo menos o santo
que a brisa do brasil briga e balança
e no entanto, durante a dança
depois do fim do medo e da esperança
depois de arrebanhar o marginal, a puta
o evangélico e o policial
vi que o meu desenho de mim
é tal e qual
o personagem pra quem eu cria que sempre
olharia
com desdém total
mas não é assim comigo.
é como em plena glória espiritual
que digo:
eu sou o homem cordial
que vim para instaurar a democracia racial
eu sou o homem cordial
que vim para afirmar a democracia racial

eu sou o herói
só deus e eu sabemos como dói